{"id":1857,"date":"2024-02-03T23:12:25","date_gmt":"2024-02-03T23:12:25","guid":{"rendered":"https:\/\/nalua.in\/notas\/?p=1857"},"modified":"2024-02-03T23:12:25","modified_gmt":"2024-02-03T23:12:25","slug":"1857-2","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nalua.in\/notas\/1857-2\/","title":{"rendered":""},"content":{"rendered":"<h1>Uma amizade sincera<\/h1>\n<div style=\"text-align: right;\"><strong>Clarice Lispector<\/strong><\/div>\n<article id=\"post-25067\">\n<div>\n<header>\n<div><\/div>\n<\/header>\n<\/div>\n<div id=\"aswift_1_host\" style=\"text-align: justify;\" tabindex=\"0\" title=\"Advertisement\" aria-label=\"Advertisement\">N\u00e3o \u00e9 que f\u00f4ssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no \u00faltimo ano da escola. Desde esse momento est\u00e1vamos juntos a qualquer hora. H\u00e1 tanto tempo precis\u00e1vamos de uma amigo que nada havia que n\u00e3o confi\u00e1ssemos um ao outro. Chegamos a um ponto de amizade que n\u00e3o pod\u00edamos mais guardar um pensamento: um telefonava logo ao outro, marcando encontro imediato. Depois da conversa, sent\u00edamo-nos t\u00e3o contentes como se nos tiv\u00e9ssemos presenteado a n\u00f3s mesmos. Esse estado de comunica\u00e7\u00e3o cont\u00ednua chegou a tal exalta\u00e7\u00e3o que, no dia em que nada t\u00ednhamos a nos confiar, procur\u00e1vamos com alguma afli\u00e7\u00e3o um assunto. S\u00f3 que o assunto havia de ser grave, pois em qualquer um n\u00e3o caberia a veem\u00eancia de uma sinceridade pela primeira vez experimentada.<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">J\u00e1 nesse tempo apareceram os primeiros sinais de perturba\u00e7\u00e3o entre n\u00f3s. \u00c0s vezes um telefonava, encontr\u00e1vamo-nos, e nada t\u00ednhamos a nos dizer. \u00c9ramos muito jovens e n\u00e3o sab\u00edamos ficar calados. De in\u00edcio, quando come\u00e7ou a faltar assunto, tentamos comentar as pessoas. Mas bem sab\u00edamos que j\u00e1 est\u00e1vamos adulterando o n\u00facleo da amizade. Tentar falar sobre nossas m\u00fatuas namoradas tamb\u00e9m estava fora de cogita\u00e7\u00e3o, pois um homem n\u00e3o falava de seu amores. Experiment\u00e1vamos ficar calados \u2013 mas torn\u00e1vamo-nos inquietos logo depois de nos separarmos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Minha solid\u00e3o, na volta de tais encontros, era grande e \u00e1rida. Cheguei a ler livros apenas para poder falar deles. Mas uma amizade sincera\u00a0queria a sinceridade mais pura. \u00c0 procura desta, eu come\u00e7ava a me sentir vazio. Nossos encontros eram cada vez mais decepcionantes.<\/p>\n<div style=\"text-align: justify;\">\n<div id=\"aries_div_4199566260\">\n<div id=\"adSlot_5277_8941_170700152365bec6b3925a3\">\n<div>\n<div>\n<div>\n<div>\n<div tabindex=\"0\">\n<div tabindex=\"1\">\n<div>Minha sincera pobreza revelava-se aos poucos. Tamb\u00e9m ele, eu sabia, chegara ao impasse de si mesmo.<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<\/div>\n<p style=\"text-align: justify;\">Foi quando, tendo minha fam\u00edlia se mudado para S\u00e3o Paulo, e ele morando sozinho, pois sua fam\u00edlia era do Piau\u00ed, foi quando o convidei a morar em nosso apartamento, que ficara sob a minha guarda. Que rebuli\u00e7o de alma. Radiantes, arrum\u00e1vamos nossos livros e discos, prepar\u00e1vamos um ambiente perfeito para a amizade. Depois de tudo pronto \u2013 eis-nos dentro de casa, de bra\u00e7os abanando, mudos, cheios apenas de amizade.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quer\u00edamos tanto salvar o outro. Amizade \u00e9 mat\u00e9ria de salva\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas todos os problemas j\u00e1 tinham sido tocados, todas as possibilidades estudadas. T\u00ednhamos apenas essa coisa que hav\u00edamos procurado sedentos at\u00e9 ent\u00e3o e enfim encontrado: uma amizade\u00a0sincera. \u00danico modo, sab\u00edamos, e com que amargor sab\u00edamos, de sair da solid\u00e3o que um esp\u00edrito tem no corpo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas como se nos revelava sint\u00e9tica a amizade. Como se quis\u00e9ssemos espalhar em longo discurso um tru\u00edsmo que uma palavra esgotaria. Nossa amizade era t\u00e3o insol\u00favel como a soma de dois n\u00fameros: in\u00fatil querer desenvolver para mais de um momento a certeza de que dois e tr\u00eas s\u00e3o cinco. Tentamos organizar algumas farras no apartamento, mas n\u00e3o s\u00f3 os vizinhos reclamaram como n\u00e3o adiantou.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Se ao menos pud\u00e9ssemos prestar favores um ao outro. Mas nem havia oportunidade, nem acredit\u00e1vamos em provas de uma amizade\u00a0que delas n\u00e3o precisava. O mais que pod\u00edamos fazer era o que faz\u00edamos: saber que \u00e9ramos amigos. O que n\u00e3o bastava para encher os dias, sobretudo as longas f\u00e9rias.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Data dessas f\u00e9rias o come\u00e7o da verdadeira afli\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ele, a quem eu nada podia dar sen\u00e3o minha sinceridade, ele passou a ser uma acusa\u00e7\u00e3o de minha pobreza. Al\u00e9m do mais, a solid\u00e3o de um ao lado do outro, ouvindo m\u00fasica ou lendo, era muito maior do que quando est\u00e1vamos sozinhos. E, mais que maior, inc\u00f4moda. N\u00e3o havia paz. Indo depois cada um para seu quarto, com al\u00edvio nem nos olh\u00e1vamos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">\u00c9 verdade que houve uma pausa no curso das coisas, uma tr\u00e9gua que nos deu mais esperan\u00e7as do que em realidade caberia. Foi quando meu amigo teve uma pequena quest\u00e3o com a Prefeitura. N\u00e3o \u00e9 que fosse grave, mas n\u00f3s a tornamos para melhor us\u00e1-la. Porque ent\u00e3o j\u00e1 t\u00ednhamos ca\u00eddo na facilidade de prestar favores. Andei entusiasmado pelos escrit\u00f3rios de conhecidos de minha fam\u00edlia, arranjando pistol\u00f5es para meu amigo. E quando come\u00e7ou a fase de selar pap\u00e9is, corri por toda a cidade \u2013 posso dizer em consci\u00eancia que n\u00e3o houve firma que se reconhecesse sem ser atrav\u00e9s de minha m\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Nessa \u00e9poca encontr\u00e1vamo-nos de noite em casa, exaustos e animados: cont\u00e1vamos as fa\u00e7anhas do dia, planej\u00e1vamos os ataques seguintes. N\u00e3o aprofund\u00e1vamos muito o que estava sucedendo, bastava que tudo isso tivesse o cunho da amizade. Pensei compreender por que os noivos se presenteiam, por que o marido faz quest\u00e3o de dar conforto \u00e0 esposa, e esta prepara-lhe afanada o alimento, por que a m\u00e3e exagera nos cuidados ao filho. Foi, ali\u00e1s, nesse per\u00edodo que, com algum sacrif\u00edcio, dei um pequeno broche de ouro \u00e0quela que \u00e9 hoje minha mulher. S\u00f3 muito depois eu ia compreender que estar tamb\u00e9m \u00e9 dar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Encerrada a quest\u00e3o com a Prefeitura \u2013 seja dito de passagem, com vit\u00f3ria nossa \u2013 continuamos um ao lado do outro, sem encontrar aquela palavra que cederia a alma. Cederia a alma? mas afinal de contas quem queria ceder a alma? Ora essa.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Afinal o que quer\u00edamos? Nada. Est\u00e1vamos fatigados, desiludidos.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A pretexto de f\u00e9rias com minha fam\u00edlia, separamo-nos. Ali\u00e1s ele tamb\u00e9m ia ao Piau\u00ed. Um aperto de m\u00e3o comovido foi o nosso adeus no aeroporto. Sab\u00edamos que n\u00e3o nos ver\u00edamos mais, sen\u00e3o por acaso. Mais que isso: que n\u00e3o quer\u00edamos nos rever. E sab\u00edamos tamb\u00e9m que \u00e9ramos amigos. Amigos sinceros.<\/p>\n<p>Clarice Lispector in Felicidade Clandestina. Rio de Janeiro, Rocco, 1998<\/p>\n<\/article>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Uma amizade sincera Clarice Lispector N\u00e3o \u00e9 que f\u00f4ssemos amigos de longa data. Conhecemo-nos apenas no \u00faltimo ano da escola. 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