{"id":15,"date":"2022-03-16T22:26:16","date_gmt":"2022-03-16T22:26:16","guid":{"rendered":"http:\/\/cartas.nalu.in\/?p=15"},"modified":"2022-03-16T22:26:16","modified_gmt":"2022-03-16T22:26:16","slug":"remedios-varo","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nalua.in\/cartas\/2022\/03\/16\/remedios-varo\/","title":{"rendered":"Remedios Varo"},"content":{"rendered":"<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"wp-image-18 aligncenter\" src=\"http:\/\/cartas.nalu.in\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/remedios-varo-cabecera-optim-1-1-300x125.jpg\" alt=\"\" width=\"372\" height=\"155\" \/><\/p>\n<p><strong>Poema para a fiandeira de Remedios Varo<\/strong><\/p>\n<p><em>n\u00e3o h\u00e1 de ser<\/em><br \/>\n<em>s\u00f3 escuro o lado<\/em><br \/>\n<em>de dentro do muro<\/em><br \/>\n<em>o avesso do vi\u00e7o esse pesar<\/em><\/p>\n<p><em>\u00e9 a retina<\/em><br \/>\n<em>que rege o furor das coisas<\/em><\/p>\n<p><em>sob o descompasso da neblina<\/em><br \/>\n<em>h\u00e1 terra \u00famida que germina \u2014<\/em><br \/>\n<em>o cora\u00e7\u00e3o do ventre<\/em><br \/>\n<em>mora no olhar<\/em><\/p>\n<p><em>h\u00e1 de se descortinar o c\u00e9u de si<\/em><br \/>\n<em>vento estrela aurora boreal<\/em><br \/>\n<em>arrancar da pr\u00f3pria costela a mulher que ali habita<\/em><br \/>\n<em>morrer-se a cada dia um tanto<\/em><br \/>\n<em>concha<\/em><br \/>\n<em>semente<\/em><br \/>\n<em>pranto<\/em><br \/>\n<em>navegar al\u00e9m do canto (e do sil\u00eancio)<\/em><br \/>\n<em>das sereias do pensamento<\/em><\/p>\n<p style=\"text-align: right;\"><span style=\"text-decoration: underline;\">Francesca Cricelli<\/span><\/p>\n<h6 style=\"text-align: justify;\">Ribeir\u00e3o Preto, maio 2019.<\/h6>\n<hr \/>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-19 aligncenter\" src=\"http:\/\/cartas.nalu.in\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/remediosv-1-300x209.jpeg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"209\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Com cinquenta anos eu me sinto assombrada, cada vez mais assombrada. Segunda adolesc\u00eancia, busca de respostas, o mundo se despeda\u00e7ando. Como sempre, mato a realidade nos livros. O que leio agora \u00e9 <em>O Mundo Desdobr\u00e1vel<\/em> da Carola Saavedra.<br \/>\nEstou amando e fico lendo, suspirando, rabiscando, fazendo pausas e enchendo o WhatsApp dos amigos de trechos. Pois bem. Leio hoje um trecho em que Carola fala de uma artista chamada Remedios Varo.<br \/>\nParo imediatamente, tenho essa fissura tola de ficar indo em busca das refer\u00eancias. Mas olha s\u00f3, ela come\u00e7a o tal trecho assim: \u201c<em>Remedios Varo \u00e9 uma das artistas mais interessantes que conhe\u00e7o<\/em>\u201d. Basta isso para que eu queira saber quem \u00e9 essa artista que encantou a outra artista que tem me encantado, e corro atr\u00e1s.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Descubro que realmente, <em>puta que pariu,<\/em> que mulher interessante, como eu n\u00e3o conhecia a hist\u00f3ria dela? Continuo correndo atr\u00e1s e vejo as pinturas, <em>socorro<\/em>, cada uma mais incr\u00edvel que a outra.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"size-medium wp-image-20 aligncenter\" src=\"http:\/\/cartas.nalu.in\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/varo11-300x300.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"300\" \/><br \/>\nParecem sonhos, s\u00e3o poesia em telas. E s\u00e3o todas dos anos 50-60 do s\u00e9culo XX, mas parecem imagens que vejo agora no universo das pessoas jovens. Parecem sa\u00eddas do Pinterest ou do Instagram de algu\u00e9m que ainda est\u00e1 no pr\u00f3prio tempo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">E as pinturas de Varo s\u00e3o surreais, acontecem no pr\u00f3prio cora\u00e7\u00e3o do movimento Surrealista. Fico encantada, e com muita pena de n\u00e3o poder ver essas pinturas ao vivo. Ainda bem que existe a internet e que vivemos de simulacro. Por ora vai ter que servir.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Resolvo come\u00e7ar a ler sobre ela, a Remedios Varo. Esque\u00e7o da vida, esque\u00e7o esse mundo feio, todos os meus problemas (ui que del\u00edcia). J\u00e1 me sinto amiga dela, queria bater papo.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">A\u00ed at\u00e9 ensaiei fazer uma pequena biografia dela, mas n\u00e3o, informa\u00e7\u00f5es sobre os dados e datas da vida dela s\u00e3o f\u00e1ceis de encontrar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Pois o que eu queria mesmo era falar para voc\u00eas que ela foi uma pintora que fez parte do movimento surrealista, era considerada sensacional por Andr\u00e9 Breton (e por v\u00e1rios outros), mas n\u00e3o teve o mesmo reconhecimento dos homens do movimento, nem de longe.<br \/>\nTamb\u00e9m queria contar que ela era antinazista, antifascista, que divergia dos surrealistas da Espanha pois achava que eles eram pouco comprometidos com as mudan\u00e7as sociais.<br \/>\nQue ela viveu em Paris nos anos dourados do Surrealismo. Que antes ela foi contempor\u00e2nea de Dali, e viu <em>Um C\u00e3o Andaluz<\/em> em primeira m\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Remedios pintava o inconsciente, sua obra \u00e9 uma explos\u00e3o de cores e de detalhes simb\u00f3licos. Que como soi acontecer, ela estava na vanguarda, como pessoa e como artista. E n\u00e3o se envergonhava de suas bruxarias ou de seu colorido.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Que ela se casou para sair do jugo da fam\u00edlia e na primeira oportunidade <em>vazou<\/em> com o marido para a Fran\u00e7a, fugindo da Guerra Civil espanhola. Mas logo se viu numa Paris ocupada. E Frida Kahlo rogou ao governo do M\u00e9xico que a recebesse na fuga do nazismo. (Isso s\u00f3 se soube recentemente, a fofoca mais conhecida era a de que Frida e Diego esnobaram Remedios quando ela chegou ao M\u00e9xico).<\/p>\n<p><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-17 aligncenter\" src=\"http:\/\/cartas.nalu.in\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Remedios-Varo-1200x880-1-300x220.jpg\" alt=\"\" width=\"300\" height=\"220\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Quero contar para voc\u00eas que as pinturas dela s\u00e3o maravilhosas e que ela era fascinante e teve <strong>N<\/strong> amantes, casou, descasou v\u00e1rias vezes, se apaixonou outras tantas. Que era muito amiga dos ex maridos e ex amores. N\u00e3o teve filhos. Teve um amante 14 anos mais jovem e foi rodar o mundo com ele, que era piloto. Abandonou a Espanha e ficou no M\u00e9xico. Era bruxa, m\u00edstica, intelectual. Lia Gurdjeff e suas pinturas t\u00eam a influ\u00eancia dele e de gente como Poe, Dumas, Verne, Bosch, El Greco, Goya.<br \/>\nRemedios adorava gatos, suas pinturas est\u00e3o cheias de gatos, de torres, de rel\u00f3gios, de freiras, de fios fin\u00edssimos, de rodas de bicicletas e de pessoas mag\u00e9rrimas. Tamb\u00e9m \u00e9 cheia de janelas e de Freud e de Jung.<br \/>\nEssa mo\u00e7a t\u00e3o diferente encantou Octavio Paz. E esse poeta lhe escreveu um texto bel\u00edssimo, al\u00e9m de cartas e bilhetes cheios de amor e admira\u00e7\u00e3o.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Mas o que me deixou cheia de risadinhas juvenis foi a amizade dela com Leonor Carrington. As duas trocavam receitas de po\u00e7\u00f5es er\u00f3ticas e m\u00e1gicas, se deliciavam conversando sobre misticismo e magia e viagens interiores, e tamb\u00e9m com coisas que seriam imposs\u00edveis de realizar. E riam juntas, eram vizinhas e bebiam juntas. Conquiatariam o mundo juntas se tivessem deixado. N\u00e3o me contaram isso, mas certamente elas se apoiavam. Ainda mais nos anos 50, contra tudo, contra o mundo dos homens. E juntas causavam (risos). Elas se chamavam <strong><em>almas g\u00eameas.<\/em><\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\"alignnone size-medium wp-image-21 aligncenter\" src=\"http:\/\/cartas.nalu.in\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/UUCDFVRFXNCUFNHHVLWY3I4BZE-1-200x300.webp\" alt=\"\" width=\"200\" height=\"300\" \/><br \/>\nTamb\u00e9m n\u00e3o posso esquecer de falar que as obras dela s\u00e3o sim, do mesmo n\u00edvel dos maiores trabalhos surrealistas e que ela n\u00e3o merecia ficar fora da hist\u00f3ria da pintura, como uma men\u00e7\u00e3o apenas. Isso n\u00e3o sou eu que falo, <em>quem sou eu,<\/em> mas gente que entende do riscado. Ainda bem que nosso tempo vem corrigindo essas injusti\u00e7as.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Remedios morreu muito cedo, morreu aos 55 anos. \u00c9 outro assombro pensar nisso. \u00c9 um assombro pensar numa vida t\u00e3o curta e t\u00e3o rica, ela tinha apenas 55! Por isso tamb\u00e9m eu tenho 50 e vivo assombrada.<br \/>\nOutra hora vou procurar sobre Leonor, talvez ela tenha morrido mais tarde. Quem sabe ela come\u00e7ou depois dos 50 e eu ainda tenho tempo? (risos eternos)<\/p>\n<hr \/>\n<p>A\u00ed vai um pequeno pdf que fiz com algumas obras de<br \/>\nRemedios e um texto de Octavio Paz sobre ela: <a href=\"http:\/\/cartas.nalu.in\/wp-content\/uploads\/2022\/03\/Remedios-Varo-pinturas-e-texto.pdf\" target=\"_blank\" rel=\"noopener\">Remedios Varo pinturas e texto<\/a><\/p>\n<h6>(Esse texto eu fiz de cabe\u00e7a depois de ler v\u00e1rias coisas e pode ter incorre\u00e7\u00f5es. Mas se algu\u00e9m se dignar a ver as pinturas dela, j\u00e1 valeu)<\/h6>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>Poema para a fiandeira de Remedios Varo n\u00e3o h\u00e1 de ser s\u00f3 escuro o lado de dentro do muro o avesso do vi\u00e7o esse pesar \u00e9 a retina que rege o furor das coisas sob o descompasso da neblina h\u00e1 terra \u00famida que germina \u2014 o cora\u00e7\u00e3o do ventre mora no olhar h\u00e1 de se &hellip; <\/p>\n<p class=\"link-more\"><a href=\"https:\/\/nalua.in\/cartas\/2022\/03\/16\/remedios-varo\/\" class=\"more-link\">Continue lendo<span class=\"screen-reader-text\"> &#8220;Remedios Varo&#8221;<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[1],"tags":[],"class_list":["post-15","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-uncategorized","entry"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nalua.in\/cartas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/nalua.in\/cartas\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nalua.in\/cartas\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nalua.in\/cartas\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nalua.in\/cartas\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=15"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/nalua.in\/cartas\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/15\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nalua.in\/cartas\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=15"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nalua.in\/cartas\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=15"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nalua.in\/cartas\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=15"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}