{"id":955,"date":"2006-03-14T16:06:00","date_gmt":"2006-03-14T16:06:00","guid":{"rendered":"http:\/\/nalu.wordpress.com\/2006\/03\/14\/imperio-da-vaidade"},"modified":"2006-03-14T16:06:00","modified_gmt":"2006-03-14T16:06:00","slug":"imperio-da-vaidade","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nalua.in\/blog\/imperio-da-vaidade\/","title":{"rendered":"Imp\u00e9rio da Vaidade"},"content":{"rendered":"<p align=\"center\">****************************************<br \/><i>Da s\u00e9rie &#8220;Para pensar um pouquinho&#8230;&#8221;<\/i><br \/><font face=\"arial\" color=\"#000000\" size=\"4\"><br \/><b>O Imp\u00e9rio da Vaidade<\/b><br \/><\/font><\/p>\n<p align=\"center\"><font face=\"arial\" color=\"#000000\" size=\"3\"><br \/><b>Em tempos de ditadura da beleza, corpo \u00e9 massacrado pela ind\u00fastria e  pelo com\u00e9rcio, que vivem da nossa inseguran\u00e7a, impot\u00eancia e ang\u00fastia <\/b><\/font><\/p>\n<p align=\"right\"><i>PAULO MOREIRA LEITE<\/i><\/p>\n<p><\/p>\n<p align=\"justify\">Voc\u00ea sabe por que a televis\u00e3o, a publicidade, o cinema e os jornais defendem os m\u00fasculos torneados, as vitaminas milagrosas, as  modelos longil\u00ed\u00adneas e as academias de gin\u00e1stica? Porque tudo isso  d\u00e1 dinheiro. Sabe porque ningu\u00e9m fala do afeto e do respeito entre duas pessoas comuns, mesmo meio gordas, um pouco feias, que fazem piquenique na praia? Porque isso n\u00e3o d\u00e1 dinheiro para os negociantes, mas d\u00e1 prazer para os participantes. <\/p>\n<p>O prazer \u00e9 f\u00ed\u00adsico, independentemente do f\u00ed\u00adsico que se tenha: namorar, tomar milk-shake, sentir o sol na pele, carregar o filho no colo. Andar descal\u00e7o, ficar em casa sem fazer nada. Os melhores prazeres s\u00e3o de gra\u00e7a \u00e2\u20ac\u201d a conversa com o amigo, o cheiro do jasmim, a rua vazia de madrugada \u00e2\u20ac\u201d, e a humanidade sempre gostou de conviver com eles. Comer uma feijoada com amigos, tomar caipirinha no s\u00e1bado tamb\u00e9m \u00e9 uma grande pedida. Ter um momento de prazer \u00e9 compensar muitos momentos de desprazer.<\/p>\n<p>Relaxar, descansar, despreocupar-se. desligar-se da competi\u00e7\u00e3o, da \u00e1spera luta pela vida \u00e2\u20ac\u201d isso \u00e9 prazer. <\/p>\n<p>Mas vivemos num mundo onde relaxar e desligar-se se tornou um problema. O prazer gratuito, espont\u00e2neo, est\u00e1 cada vez mais dif\u00ed\u00adcil. O que importa, o que vale, \u00e9 o prazer que se compra e se exibe, o que n\u00e3o deixa deser um aspecto da competi\u00e7\u00e3o.  Estamos submetidos a uma cultura atroz, que quer  fazer-nos infelizes, ansiosos, neur\u00f3ticos. As filhas precisam ser Xuxas, as namoradas precisam ser modelo que desfilam em Paris, os homens n\u00e3o podem assumir sua idade. <\/p>\n<p>N\u00e3o vivemos a ditadura do corpo, mas seu contr\u00e1rio: um massacre da ind\u00fastria e do com\u00e9rcio. Querem que sintamos culpa quando nossa silhueta fica um pouco mais gorda, n\u00e3o porque querem que sejamos mais saud\u00e1veis \u00e2\u20ac\u201d mas porque, se n\u00e3o ficarmos angustiados, n\u00e3o faremos mais regimes, n\u00e3o compraremos mais produtos diet\u00e9ticos, nem produtos de beleza, nem roupas e mais roupas. Precisam da nossa impot\u00eancia, da nossa inseguran\u00e7a, da nossa ang\u00fastia. <\/p>\n<p>O \u00fanico valor coerente que essa cultura apresenta \u00e9 o narcisismo. Vivemos voltados para dentro, \u00ed\u00a0 procura de mundos interiores (ou mesmo vidas anteriores). O esoterismo n\u00e3o acaba nunca \u00e2\u20ac\u201d s\u00f3 muda de papa a cada Bienal do Livro \u00e2\u20ac\u201d, assim como os cursos de autoconhecimento, auto-realiza\u00e7\u00e3o e, especialmente, autopromo\u00e7\u00e3o. O narcisismo explica nossa \u00e2nsia pela fama e pela posi\u00e7\u00e3o social. \u00c9 hipocrisia dizer que entramos numa academia de gin\u00e1stica porque estamos preocupados com a sa\u00fade. Se fosse assim, j\u00e1 ter\u00ed\u00adamos arrumado uma solu\u00e7\u00e3o para quest\u00f5es mais graves, como a polui\u00e7\u00e3o que arrebenta os pulm\u00f5es, o barulho das grandes cidades, a falta de saneamento. <\/p>\n<p>Estamos preocupados em marcar a diferen\u00e7a, em afirmar uma hierarquia social, em ser distintos da massa. O cidad\u00e3o que passa o dia \u00ed\u00a0 frente do espelho, medindo o b\u00ed\u00adceps e comparando o t\u00f3rax com o do vizinho do lado, \u00e9 uma pessoa movida por uma necessidade desesperada \u00e2\u20ac\u201d precisa ser admirado para gostar de si pr\u00f3rpio. A A mulher que fez da luta contra os cabelos brancos e as rugas seu maior projeto de vida tornou-se a v\u00ed\u00adtima preferencial de um massacre perpetrado pela ind\u00fastria de cosm\u00e9ticos. Como foi demonstrado pela feminista americana Naomi Wolf, o segredo da ind\u00fastria da boa forma \u00e9 que as pessoas nunca ficam em boa forma: os m\u00e9todos de rejuvenescimento n\u00e3o impedem o envelhecimento, 90% das pessoas que fazem regime voltam a engordar, e assim por diante. O que se vende n\u00e3o \u00e9 um sonho, mas um fracasso, uma ang\u00fastia, uma derrota. <\/p>\n<p>Estamos atr\u00e1s de uma beleza fren\u00e9tica, de um padr\u00e3o externo, fabricado, que n\u00e3o \u00e9 neutro nem inocente. Ao longo dos s\u00e9culos, a beleza sempre esteve associada ao \u00f3cio. As mulheres do Renascimento tinham aquelas formas porque isso mostrava que elas n\u00e3o trabalhavam. As belas personagens femininas do romantismo brasileiro sempre tinham a pele branca, \u00e2\u20ac\u201d alabastrina \u00e2\u20ac\u201d qualquer tom mais moreno, como se sabe, j\u00e1 significava escravid\u00e3o e trabalho. Beleza \u00e9 luta de classes. Estamos na fase da beleza ostentat\u00f3ria que faz quest\u00e3o de mostrar o dinheiro, o tempo livre para passar as tardes em academias e mostra afinal, quem somos: bonitos, ricos e dignos de ser admirados.<\/p>\n<p><\/p>\n<p align=\"center\"><font face=\"arial\" color=\"#000000\" size=\"3\"><br \/>&#8220;Criou-se uma tirania que n\u00e3o suporta quando um cidad\u00e3o tenta ser feliz como gosta e como pode, mesmo que seja comendo uma pizza&#8221;.<\/font><\/p>\n<p>Esse artigo foi publicado na Veja em 23 de agosto de 1995<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>****************************************Da s\u00e9rie &#8220;Para pensar um pouquinho&#8230;&#8221;O Imp\u00e9rio da Vaidade Em tempos de ditadura da beleza, corpo \u00e9 massacrado pela ind\u00fastria e pelo com\u00e9rcio, que vivem da nossa inseguran\u00e7a, impot\u00eancia e ang\u00fastia PAULO MOREIRA LEITE Voc\u00ea sabe por que a televis\u00e3o, a publicidade, o cinema e os jornais defendem os m\u00fasculos torneados, as vitaminas milagrosas, as &hellip; <a href=\"https:\/\/nalua.in\/blog\/imperio-da-vaidade\/\" class=\"more-link\">Continuar lendo <span class=\"screen-reader-text\">Imp\u00e9rio da Vaidade<\/span><\/a><\/p>\n","protected":false},"author":1,"featured_media":0,"comment_status":"open","ping_status":"open","sticky":false,"template":"","format":"standard","meta":{"footnotes":""},"categories":[24],"tags":[],"class_list":["post-955","post","type-post","status-publish","format-standard","hentry","category-eu"],"_links":{"self":[{"href":"https:\/\/nalua.in\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/955","targetHints":{"allow":["GET"]}}],"collection":[{"href":"https:\/\/nalua.in\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts"}],"about":[{"href":"https:\/\/nalua.in\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/types\/post"}],"author":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nalua.in\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/users\/1"}],"replies":[{"embeddable":true,"href":"https:\/\/nalua.in\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/comments?post=955"}],"version-history":[{"count":0,"href":"https:\/\/nalua.in\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/posts\/955\/revisions"}],"wp:attachment":[{"href":"https:\/\/nalua.in\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/media?parent=955"}],"wp:term":[{"taxonomy":"category","embeddable":true,"href":"https:\/\/nalua.in\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/categories?post=955"},{"taxonomy":"post_tag","embeddable":true,"href":"https:\/\/nalua.in\/blog\/wp-json\/wp\/v2\/tags?post=955"}],"curies":[{"name":"wp","href":"https:\/\/api.w.org\/{rel}","templated":true}]}}