{"id":409,"date":"2008-06-24T10:33:48","date_gmt":"2008-06-24T13:33:48","guid":{"rendered":"http:\/\/nalu.in\/409"},"modified":"2008-06-24T10:33:48","modified_gmt":"2008-06-24T13:33:48","slug":"me-larga","status":"publish","type":"post","link":"https:\/\/nalua.in\/blog\/me-larga\/","title":{"rendered":"me larga"},"content":{"rendered":"<p style=\"text-align: center;\"><img loading=\"lazy\" decoding=\"async\" class=\" alignright\" style=\"display: inline; width: 187px; height: 285px;\" src=\"http:\/\/i302.photobucket.com\/albums\/nn94\/nualua\/melarga1.jpg\" alt=\"\" width=\"207\" height=\"308\" \/><\/p>\n<p style=\"text-align: center;\"><strong>ME LARGA!<\/strong><\/p>\n<p>Autor: RUFO, MARCEL<br \/>\nEditora: WMF MARTINS FONTES<br \/>\nAssunto: PSICOLOGIA<br \/>\nISBN: 8560156615 ISBN-13: 9788560156610<br \/>\nLivro em portugu\u00eas &#8211; Brochura &#8211; 1\u00aa Edi\u00e7\u00e3o &#8211; 2007 &#8211; 186 p\u00e1g.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Ao nascer, o beb\u00ea e a m\u00e3e fazem um s\u00f3. \u00c9 o tempo da fus\u00e3o, indispens\u00e1vel, em que ele vai ganhar seguran\u00e7a e for\u00e7a. No entanto, \u00e9 preciso crescer e, para isso, distanciar-se para poder ganhar novos territ\u00f3rios de autonomia e liberdade. Todo o desenvolvimento psicomotor da crian\u00e7a, toda vida humana aparecem como uma seq\u00ed\u00bc\u00eancia de liga\u00e7\u00f5es e desligamentos, de conquistas e separa\u00e7\u00f5es. Por\u00e9m, \u00e9 poss\u00ed\u00advel se separar sem sofrer? Por que a separa\u00e7\u00e3o faz nascer um sentimento de abandono? O que \u00e9 o trabalho do luto e ser\u00e1 que ele alguma vez termina? Para que servem as lembran\u00e7as?<\/p>\n<p style=\"text-align: center;\">***<!--more--><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Trecho do livro &#8220;Me larga! &#8211; Separar-se para crescer&#8221;, de Marcel Rufo<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Editora Martins Fontes<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">http:\/\/revistamarieclaire.globo.com\/Marieclaire\/0,6993,EML1678141-1731,00.html<\/p>\n<p>1<strong>. No come\u00e7o era a fus\u00e3o<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\n<\/strong>A fus\u00e3o n\u00e3o dura apenas o tempo da gravidez, deve se prolongar durante as primeiras semanas de vida da crian\u00e7a, que precisa da m\u00e3e para sobreviver. Portanto, o nascimento n\u00e3o aparece como uma primeira separa\u00e7\u00e3o. Embora o cord\u00e3o umbilical que liga o beb\u00ea \u00ed\u00a0 sua m\u00e3e esteja efetivamente cortado, ele perdura, ps\u00ed\u00adquica e simbolicamente, pelo aleitamento, mas tamb\u00e9m por todos os cuidados maternos que pouco a pouco v\u00e3o dando \u00ed\u00a0 crian\u00e7a o sentimento de sua pr\u00f3pria exist\u00eancia.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Separa\u00e7\u00f5es precoces demais<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Rafael, que em breve ir\u00e1 completar seis anos, tem dificuldades para falar. Trope\u00e7a nas palavras, que ficam bloqueadas como se estivessem se recusando a sair. Sua gagueira come\u00e7ou quando ele tinha 18 meses, no momento do aprendizado da linguagem. Rafael \u00e9 acompanhado por um fonoaudi\u00f3logo que, por ocasi\u00e3o de uma avalia\u00e7\u00e3o, lhe perguntou o que tinha acontecido na vida dele que pudesse explicar sua gagueira, mas o menininho se recusou a falar sobre isso com ele, tal como se recusa atualmente a faz\u00ea-lo comigo. Ent\u00e3o \u00e9 sua m\u00e3e que me conta sua hist\u00f3ria: o filho tinha mais ou menos 18 meses quando ela derramou \u00f3leo fervendo de fondue sobre toda a parte inferior do pr\u00f3prio corpo. Com queimaduras de terceiro grau,<br \/>\nprecisou ficar internada muito tempo. Como os servi\u00e7os hospitalares finalmente entenderam que n\u00e3o se deve separar os filhos dos pais, Rafael tinha autoriza\u00e7\u00e3o para ver a m\u00e3e, mas a cada vez batia nela violentamente.<br \/>\nParece evidente que essa separa\u00e7\u00e3o precoce provocou no menino uma ang\u00fastia determinante, respons\u00e1vel tanto por sua agressividade contra a m\u00e3e quanto por sua gagueira. Por volta dos 18 meses, estava entrando na fase de oposi\u00e7\u00e3o, per\u00ed\u00adodo em que as crian\u00e7as dizem &#8220;n\u00e3o&#8221; a tudo para se afirmar como seres aut\u00f4nomos e se separar um pouco dos pais. Em vez de dizer n\u00e3o, Rafael batia na m\u00e3e, a fim de puni-la; aos seus olhos de crian\u00e7a aindamuito dependente, a m\u00e3e eram\u00e1 por estar doente, j\u00e1 que ele vivia a interna\u00e7\u00e3o como um abandono. Batia nela para for\u00e7ar um contato dif\u00ed\u00adcil de se estabelecer, devido ao afastamento e aos encontros espa\u00e7ados, que duravam apenas o tempo de uma visita.A aus\u00eanciamaterna criava nele uma car\u00eancia relacional que ele se esfor\u00e7ava para paliar batendo.Nele, a agressividade era mais f\u00ed\u00adsica que verbal. N\u00e3o conseguia materializar e p\u00f4r palavras no trauma que a separa\u00e7\u00e3o precoce da m\u00e3e representava para ele. Ent\u00e3o, desde aquela \u00e9poca guarda as palavras como se tivessemedo de perd\u00ea-las tamb\u00e9m,medo de se separar delas. Sua m\u00e3e me diz claramente: &#8220;Sou obrigada a faz\u00ea-lo repetir tr\u00eas vezes a mesma coisa, assim ficamos mais tempo juntos.&#8221; Podese ent\u00e3o pensar que Rafael gagueja para for\u00e7ar am\u00e3e a escut\u00e1-lo mais, a estar mais atenta a ele, a lhe dedicar mais tempo.<br \/>\nDe fato, a linguagem \u00e9 um extraordin\u00e1rio separador. \u00c9 o fim do pele com pele, da comunica\u00e7\u00e3o que se d\u00e1 apenas pelo toque, pelas m\u00ed\u00admicas. Ao aprender a falar, a crian\u00e7a toma dist\u00e2ncia dos pais; entre eles passar\u00e1 a haver as palavras, as palavras por meio das quais a crian\u00e7a se afasta, particularmente dizendo &#8220;n\u00e3o&#8221;, mas tamb\u00e9m dizendo &#8220;moi&#8221; (eu) e depois &#8220;je&#8221; (eu)*. A crian\u00e7a sempre come\u00e7a dizendo &#8220;moi&#8221;, afirma\u00e7\u00e3o de si mais gloriosa e evidente do que o &#8220;je&#8221;, mais modesto. Ali\u00e1s, durante toda a nossa vida o &#8220;moi&#8221; vir\u00e1 refor\u00e7ar o &#8220;je&#8221;quando tivermos necessidade de dar mais peso a nossas palavras: &#8220;Moi, je pense que\u00e2\u20ac\u00a6&#8221; (&#8220;EU acho que\u00e2\u20ac\u00a6&#8221;), &#8220;C&#8217;est moi&#8221;(&#8220;Sou EU&#8221;), como se, por obra e gra\u00e7a do &#8220;moi&#8221;, o &#8220;je&#8221; se tornasse indiscut\u00ed\u00advel.<br \/>\nPortanto, ao reter as palavras, Rafael ret\u00e9m sua m\u00e3e perto de si de maneira regressiva. Trata-se, ali\u00e1s, de uma m\u00e3e de muito valor, que entende claramente que grande parte de seu grude com o filho se deve \u00ed\u00a0 culpa de n\u00e3o ter cuidado o suficiente dele por causa da interna\u00e7\u00e3o. Posteriormente, sofreu um aborto que a aproximou ainda mais de Rafael.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Viver \u00e9 se separar para crescer e ganhar autonomia. Contudo, existem separa\u00e7\u00f5es &#8220;naturais&#8221;, \u00ed\u00a0s quais a pr\u00f3pria crian\u00e7a aspira \u00ed\u00a0 medida que se desenvolve e adquire novas capacidades, e separa\u00e7\u00f5es impostas, a interna\u00e7\u00e3o de uma m\u00e3e, por exemplo, sempre dolorosas, \u00ed\u00a0s vezes dram\u00e1ticas.<br \/>\nEm 1945, Ren\u00e9 Spitz observou a rea\u00e7\u00e3o de beb\u00eas precocemente separados da m\u00e3e e descreveu sob o termo &#8220;hospitalismo&#8221; &#8220;o conjunto de perturba\u00e7\u00f5es f\u00ed\u00adsicas e mentais devidas a uma car\u00eancia afetiva nos 18 primeiros meses de vida, seja porque a crian\u00e7a foi abandonada, seja porque teve de ser colocada numa institui\u00e7\u00e3o ou hospitalizada por um longo per\u00ed\u00adodo&#8221;. O quadro de Spitz se aplica tamb\u00e9m &#8220;\u00ed\u00a0s crian\u00e7as que sofrem repetidas separa\u00e7\u00f5es da m\u00e3e e \u00ed\u00a0quelas que recebem da parte dela cuidados nitidamente insuficientes, sem que a maternagem de outras pessoas venha compensar essa falta&#8221;.<br \/>\nQuais foram as observa\u00e7\u00f5es de Spitz? Durante o primeiro m\u00eas de separa\u00e7\u00e3o, a crian\u00e7a se mostra triste, chora sem motivo aparente, mas busca o contato tentando desesperadamente agarrar qualquer adulto que passe por ela. No segundo m\u00eas, a tristeza continua, mas a crian\u00e7a empenha menos energia na busca de contato. Seu desenvolvimento f\u00ed\u00adsico fica perturbado e, freq\u00ed\u00bcentemente, ela perde peso. Finalmente, a partir do terceiro m\u00eas, ao mesmo tempo ansiosa e indiferente, a crian\u00e7a recusa todo contato. Geralmente deitada de barriga para baixo, a crian\u00e7a tem ins\u00f4nia, recusa alimento. Seu sistema imunol\u00f3gico se enfraquece e ela adoece facilmente. Seu retardo psicomotor se generaliza, tem menos tonicidade que as outras crian\u00e7as, mal consegue ficar sentada ou nem o consegue, n\u00e3o tenta andar\u00e2\u20ac\u00a6<br \/>\nDepois de tr\u00eas meses de separa\u00e7\u00e3o, a express\u00e3o de seu rosto se enrijece, o olhar parece ausente. A crian\u00e7a n\u00e3o sorri, mas tampouco grita ou chora, emitindo, no lugar disso, uma esp\u00e9cie de gemido enquanto faz movimentos ou gestos repetitivos, comumente chamados de estereotipias. Quanto mais cedo o filho \u00e9 separado da m\u00e3e, mais graves s\u00e3o os dist\u00farbios, ainda que possam ir se atenuando com o reencontro. Entre tr\u00eas e oito meses de idade, per\u00ed\u00adodo em que se forma a rela\u00e7\u00e3o objetal com a m\u00e3e, se a separa\u00e7\u00e3o durar mais de cinco meses, os dist\u00farbios ser\u00e3o irrevers\u00ed\u00adveis. A partir dos seis meses, uma certa forma de rela\u00e7\u00e3o com a m\u00e3e j\u00e1 se estabeleceu embora a identifica\u00e7\u00e3o com uma imagem est\u00e1vel ainda n\u00e3o seja poss\u00ed\u00advel. A crian\u00e7a ter\u00e1 dist\u00farbios do desenvolvimento psicomotor mais ou menos revers\u00ed\u00adveis, uma fragilidade f\u00ed\u00adsica que far\u00e1 dela um alvo f\u00e1cil para todo tipo de infec\u00e7\u00f5es banais e, sobretudo, dist\u00farbios de comportamento que v\u00e3o de dist\u00farbios do humor a um retraimento que pode ser chamado de autista.<br \/>\nSem d\u00favida, atualmente ningu\u00e9m pensaria em separar uma crian\u00e7a doente da m\u00e3e. Na \u00e9poca de Spitz, as coisas eram diferentes. Suas observa\u00e7\u00f5es viriam revolucionar o mundo da pediatria e da neonatologia,mostrando de maneira indiscut\u00ed\u00advel que a crian\u00e7a n\u00e3o era, ao contr\u00e1rio do que se queria crer, apenas um tubo digestivo. Descobria-se, com grande espanto, que o beb\u00ea \u00e9 uma pessoa, dotada de sensa\u00e7\u00f5es, de sentimentos (n\u00e3o elaborados). N\u00e3o tem apenas necessidades vitais (ser alimentado, lavado), mas tamb\u00e9m necessidades afetivas (ser amado, estimulado).<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Os prim\u00f3rdios do apego<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Outro dia, em Balagne, achei que era um her\u00f3i. Andando por uma estrada rural, vi umrebanho de ovelhas vindo na minha dire\u00e7\u00e3o, seguido de pastores que gesticulavam e gritavam para que eu detivesse os animais. Postando-me no meio da via, tamb\u00e9m me pus a gesticular, esgoelando-me com as ovelhas para convenc\u00ea-las a deter seu avan\u00e7o.O caminho estava deserto, elas n\u00e3o corriamnenhumperigo; por que aquele ataque de autoridade por parte dos pastores? Porque uma delas acabara de parir e, em vez de cuidar de seu cordeiro, seguira os outros animais que se afastavam movida por seu instinto greg\u00e1rio. Logo, o cordeiro corria perigo de morte. Se, durante as tr\u00eas primeiras horas depois do nascimento, a m\u00e3e n\u00e3o ficar perto dele para aliment\u00e1-lo, lamb\u00ea-lo, limp\u00e1-lo, cheir\u00e1-lo e aquec\u00ea-lo, j\u00e1 n\u00e3o poder\u00e1 faz\u00ea-lo depois porque n\u00e3o reconhecer\u00e1 o filhote e nenhuma outra ovelha poder\u00e1 reconhec\u00ea-lo em seu lugar.<br \/>\n\u00c9 sem d\u00favida f\u00e1cil entender o quanto me orgulho de ter conseguido deter o rebanho, autorizando assim o encontro da m\u00e3e comseu rec\u00e9m-nascido e salvando dessemodo umcordeiro em perigo por ter sido abandonado pela m\u00e3e. Claro, o interesse dessa &#8220;fa\u00e7anha&#8221;n\u00e3o est\u00e1 em me cobrir de gl\u00f3ria; se relato esse epis\u00f3dio, \u00e9 para mostrar a import\u00e2ncia do que se chama estampagem sensorial, a partir da qual a rela\u00e7\u00e3o entre uma m\u00e3e e seu beb\u00ea poder\u00e1 se estabelecer. A vida do beb\u00ea e sua capacidade de se relacionar com os outros, a come\u00e7ar pela m\u00e3e, est\u00e3o fundadas numa base org\u00e2nica, biol\u00f3gica e bem pouco psicol\u00f3gica. Pois, como voc\u00eas devem ter entendido, o que vale para as ovelhas e os cordeiros se aplica aos animais racionais que somos, tal como mostraram John Bowlby e os et\u00f3logos. Para Bowlby, o apego de que \u00e9 capaz um beb\u00ea n\u00e3o \u00e9 resultado de uma aprendizagem; \u00e9 uma rea\u00e7\u00e3o prim\u00e1ria, uma manifesta\u00e7\u00e3o de sua estrutura instintiva de pequeno homem.Atrav\u00e9s do contato carnal &#8211; cheiro, som da voz, textura da pele, suavidade dos gestos &#8211; \u00e9 que se cria um mundo de sensorialidade em que vai se enraizar e desenvolver a capacidade de apego com que a crian\u00e7a nasce. Gra\u00e7as a essa sensorialidade, a crian\u00e7a e a m\u00e3e v\u00e3o poder se reconhecer e se apegar mutuamente.<br \/>\nPois, se o beb\u00ea precisa fusionar, felizmente a m\u00e3e tamb\u00e9m est\u00e1 apta para isso. Durante os nove meses de sua gravidez, ela desenvolveu um sistema de sinais &#8211; que \u00e9 tamb\u00e9m um sistema de comunica\u00e7\u00e3o &#8211; adaptado a seu beb\u00ea. Essa fus\u00e3o org\u00e2nica n\u00e3o termina com o nascimento, ela perdura durante os tr\u00eas primeiros meses, que Winnicott chama de &#8220;os cem dias de amor louco&#8221;. A m\u00e3e fica totalmente voltada para o beb\u00ea, devotada a ele, cheia de uma solicitude especial, que o pediatra ingl\u00eas tamb\u00e9m designa pelo nome de &#8220;preocupa\u00e7\u00e3o materna prim\u00e1ria&#8221;. Durante esse tempo \u00e9 que se funda o sentimento m\u00fatuo de perten\u00e7a deles.<br \/>\nO beb\u00ea n\u00e3o se percebe como diferente da m\u00e3e, \u00e9 seu prolongamento, simbolizado pelo aleitamento. Quanto \u00ed\u00a0 m\u00e3e, tem a impress\u00e3o de que o filho faz parte dela. Identifica-se com ele, sabe o que ele sente e, como ele, fica num estado de depend\u00eancia e vulnerabilidade. N\u00e3o se contenta em aliment\u00e1-lo, cuida dele, lava-o, embala-o, acaricia-o, carrega-o, tenta decifrar seus choros e satisfazer as necessidades que eles exprimem, brinca comele, canta-lhe can\u00e7\u00f5es de ninar e lhe murmura palavras doces, adaptando sempre suas respostas e seus cuidados ao beb\u00ea, garantindo-lhe assim uma continuidade de exist\u00eancia. Entre a m\u00e3e e seu beb\u00ea, os movimentos s\u00e3o rec\u00ed\u00adprocos, um e outro se influenciam mutuamente.<br \/>\nPara Winnicott, o crescimento afetivo da crian\u00e7a passa por tr\u00eas etapas. Uma etapa de depend\u00eancia absoluta, fisiol\u00f3gica e afetiva, durante a qual o beb\u00ea ainda n\u00e3o tem condi\u00e7\u00f5es de tomar consci\u00eancia dos cuidados maternos e n\u00e3o diferencia necessidade de falta. Em seguida, entre 6 e 18 meses, vem o tempo da depend\u00eancia relativa. Quando a m\u00e3e se ausenta, o beb\u00ea chora, pois aparece a ang\u00fastia, sinal de que ele percebe sua depend\u00eancia. Quando tem fome, reclama balbuciando ou chorando, e sua m\u00e3e satisfaz sua necessidade. Em pouco tempo, contudo, apenas a satisfa\u00e7\u00e3o de sua necessidade vital j\u00e1 n\u00e3o lhe basta; apesar de tudo, subsiste uma falta, que \u00e9 falta do outro e de onde nascer\u00e1 o desejo. A crian\u00e7a come\u00e7a a existir como sujeito e percebe uma diferen\u00e7a entre si mesma e o outro. Enfim, a partir dos dois anos, por ter introjetado a imagem e os cuidados maternos &#8211; j\u00e1 \u00e9 capaz de conservar mentalmente a imagem da m\u00e3e e sabe que ela voltar\u00e1 para responder a suas necessidades -, a crian\u00e7a poder\u00e1 obter a independ\u00eancia &#8211; independ\u00eancia muito relativa, claro -, gra\u00e7as sobretudo \u00ed\u00a0 aquisi\u00e7\u00e3o da linguagem. Se o pequeno Rafael ficou bloqueado nessa etapa, foi porque foi privado da presen\u00e7a da m\u00e3e naquele momento t\u00e3o fundamental, o que nos mostra que a separa\u00e7\u00e3o transcorre de uma maneira melhor se for acompanhada e estimulada.<br \/>\nDevemos sublinhar aqui que, embora a fus\u00e3o seja essencial durante os primeiros meses, tem de terminar gradualmente gra\u00e7as \u00ed\u00a0 m\u00e3e, que pouco a pouco vai dando respostas menos adaptadas a seu beb\u00ea, possibilitando assim que ele se perceba diferente dela. Aquela que n\u00e3o for capaz dessa desadapta\u00e7\u00e3o &#8220;fracassa&#8221;, nas palavras de Winnicott, &#8220;ao n\u00e3o dar a seu beb\u00ea motivos para sua raiva. Ora, o beb\u00ea que, apesar de ter dentro de si uma quantidade habitual de elementos agressivos, n\u00e3o tem motivos para estar com raiva se v\u00ea diante da dificuldade particular de fundir agressividade e amor&#8221;. Em outras palavras, a m\u00e3e tem de poder renunciar a seu desejo de ser uma m\u00e3e perfeita, sempre satisfat\u00f3ria, para ensinar ao beb\u00ea a frustra\u00e7\u00e3o que lhe dar\u00e1 o gosto de ir conquistar o mundo a fim de suprir a falta sentida.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O apego impedido<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\n<\/strong>Gra\u00e7as a Winnicott e particularmente a Spitz, todos os especialistas da primeira inf\u00e2ncia s\u00e3o agora &#8220;fusionistas&#8221; convictos e, tanto em neonatologia como em pediatria, todos t\u00eam consci\u00eancia da necessidade de favorecer o apego. J\u00e1 contei a hist\u00f3ria de uma jovem m\u00e3e que padecia de psicose puerperal, essa forma de psicose, felizmente rara, em que a mulher v\u00ea o filho como um representante do diabo e quer se livrar dele, mat\u00e1-lo. Por ser perigosa para o filho, seria l\u00f3gico afast\u00e1-lo dela e confirmar a n\u00e3o-fus\u00e3o que ela instaura devido a sua patologia. No entanto, o que se percebe \u00e9 que, diante de uma m\u00e3e impedida &#8211; sejam quais forem as raz\u00f5es desse impedimento -, o beb\u00ea, sempre \u00e1vido, agarra-se a ela ainda mais. Por meio de suas m\u00ed\u00admicas, balbucios, movimentos, demonstra uma grande capacidade de capta\u00e7\u00e3o, como se pressentisse que n\u00e3o deve poupar esfor\u00e7os para vincular a m\u00e3e a ele. Com todas as suas for\u00e7as, tenta atrair o olhar que o evita. Se, apesar da energia despendida, a m\u00e3e n\u00e3o responder a suas solicita\u00e7\u00f5es, a crian\u00e7a vai se esgotar e desistir, voltando-se cada vez mais sobre si mesma at\u00e9 apresentar todos os sintomas do hospitalismo de Spitz &#8211; a menos que uma m\u00e3e substituta, que pode ser o pai, venha garantir a fun\u00e7\u00e3o de maternagem de que ela necessita.<br \/>\nNas unidades materno-infantis, faz-se de tudo para favorecer o apego. No caso que acabei de mencionar, reservamos para a m\u00e3e e seu beb\u00ea momentos compartilhados, sempre mediados pela presen\u00e7a de um terceiro pronto para intervir em caso de acesso de viol\u00eancia materna, pois o essencial era que a crian\u00e7a pudesse encontrar, atrav\u00e9s do contato com ela, ainda que for\u00e7ado, certa seguran\u00e7a, e que a m\u00e3e, apesar de sua patologia, conseguisse estabelecer o esbo\u00e7o de um v\u00ed\u00adnculo com seu filho. Nessa fase, a separa\u00e7\u00e3o parecia mais prejudicial que o apego, por mais imperfeito que este fosse, tanto mais que, sendo a patologia da m\u00e3e muitas vezes transit\u00f3ria, ela tinha todas as chances de poder criar posteriormente uma rela\u00e7\u00e3o satisfat\u00f3ria com seu beb\u00ea.<br \/>\nPara haver fus\u00e3o \u00e9 preciso haver dois. Cada qual por seu lado, a m\u00e3e e o beb\u00ea t\u00eam de estar dotados de capacidade de fus\u00e3o. Esta fracassa &#8211; em todo caso, transmite menos seguran\u00e7a para a crian\u00e7a &#8211; quando um dos dois est\u00e1 impedido. \u00c9 o que \u00ed\u00a0s vezes acontece quando a m\u00e3e est\u00e1 deprimida, por exemplo. A depress\u00e3o desempenha ent\u00e3o um papel no estabelecimento da intera\u00e7\u00e3o: a m\u00e3e est\u00e1 menos dispon\u00ed\u00advel,menos atenta,muitas vezes se limita aos cuidados essenciais que devem ser fornecidos ao beb\u00ea e o acalenta menos, acaricia-o menos, brinca menos com ele; h\u00e1 transmiss\u00e3o de afetos depressivos da m\u00e3e para o beb\u00ea, que ter\u00e1 menos capacidade de entrar em contato com as pessoas e os objetos, de estabelecer rela\u00e7\u00f5es.<br \/>\nIsso implica a necessidade de apoiar e ajudar as m\u00e3es em dificuldade, para que elas possam, apesar de tudo, oferecer ao filho a seguran\u00e7a de que ele precisa nos primeiros meses, pois \u00e9 nesse per\u00ed\u00adodo que se cria um apego mais ou menos seguro que ser\u00e1 determinante para sua futura aquisi\u00e7\u00e3o de autonomia.<br \/>\nUma psic\u00f3loga canadense, MaryAinsworth, observou crian\u00e7as de 12 a 18 meses por ocasi\u00e3o de uma curta aus\u00eancia da m\u00e3e. Algumas manifestam um pouco de ang\u00fastia, depois retomam suas atividades e s\u00e3o capazes de entrar em intera\u00e7\u00e3o com outros adultos; s\u00e3o as crian\u00e7as seguras. Outras v\u00e3o manifestar pouca rea\u00e7\u00e3o de desespero ante a aus\u00eancia da m\u00e3e, mas a ignoram quando volta; s\u00e3o as inseguras evitativas. Outras, por fim, v\u00e3o exprimir sua ang\u00fastia e seu desespero durante toda a sua aus\u00eancia, e ter\u00e3o muita dificuldade de recuperar a paz quando ela volta; s\u00e3o as inseguras resistentes.<br \/>\nQuanto mais intensa a fus\u00e3o, mais seguran\u00e7a a crian\u00e7a ter\u00e1 retirado dela e mais capaz ser\u00e1 de suportar a aus\u00eancia materna, que ela ent\u00e3o aproveitar\u00e1 para explorar o mundo externo. A crian\u00e7a insegura, por sua vez, buscar\u00e1 sempre a m\u00e3e ou a evitar\u00e1 de modo evidente, sem por isso conseguir investir outras pessoas ou outros objetos. Para a primeira, passado o movimento inicial de ansiedade, a mudan\u00e7a se revela divertida, interessante, excitante; para a segunda, continua sendo fonte de ang\u00fastia. Na aus\u00eancia da m\u00e3e, privado de refer\u00eancias, o beb\u00ea se retrai, como se o \u00fanico objeto est\u00e1vel de tranq\u00ed\u00bciliza\u00e7\u00e3o fosse seu pr\u00f3prio corpo. Em vez de se abrir para o exterior, a crian\u00e7a insegura \u00e9 autocentrada e seu aparelho ps\u00ed\u00adquico n\u00e3o lhe serve para entrar em contato com o mundo e sim para remoer seus pensamentos.<br \/>\nSe a crian\u00e7a consegue se separar, \u00e9 porque est\u00e1 convencida de que vai encontrar a m\u00e3e um pouco mais tarde, o que sup\u00f5e que a m\u00e3e tenha sido &#8220;suficientemente boa&#8221; &#8211; segundo a express\u00e3o agora consagrada -, isto \u00e9, que lhe tenha dado cuidados, aten\u00e7\u00e3o e devo\u00e7\u00e3o suficientes. Do contr\u00e1rio, ter\u00e1 sempre uma fragilidade, reavivada a cada separa\u00e7\u00e3o.<br \/>\nEmbora eu costume afirmar que nada nunca \u00e9 imut\u00e1vel e que tudo pode se mover sem parar &#8211; no que de fato acredito -, deve-se reconhecer que, de certo modo, boa parte do desenvolvimento da crian\u00e7a e de sua capacidade de adquirir autonomia e de crescer est\u00e1 enraizada nos seis primeiros meses de vida. Continuo no entanto convencido de que um apego inseguro \u00e9 melhor do que nenhum apego. Pois, se no primeiro caso a crian\u00e7a pode ter dificuldade de se desapegar, no segundo estar\u00e1 impossibilitada de estabelecer outros la\u00e7os.<br \/>\nAlguns nascem privados dessa capacidade de apego, particularmente as crian\u00e7as autistas. Por muito tempo, ouviu-se que os pais eram em parte respons\u00e1veis por essa patologia. Ora, constata-se que o autismo come\u00e7a in utero, pois estaria inscrito no funcionamento neurol\u00f3gico do feto. Pesquisadores do CNRS mostraram que nos autistas, j\u00e1 durante a gravidez, certas zonas cerebrais n\u00e3o s\u00e3o ativadas, o que provoca um atraso do desenvolvimento. Um autista, por exemplo, \u00e9 sens\u00ed\u00advel a um barulho de fric\u00e7\u00e3o, mas n\u00e3o reage \u00ed\u00a0 atroada de um trem passando; n\u00e3o h\u00e1 nele discrimina\u00e7\u00e3o auditiva. No fundo, o autista n\u00e3o diferencia a voz da m\u00e3e, e \u00e9 em parte por isso que n\u00e3o pode interagir com ela. Durante certo tempo, \u00e9 poss\u00ed\u00advel que a m\u00e3e n\u00e3o perceba essa incapacidade, porque projeta no seu beb\u00ea aptid\u00f5es que ele n\u00e3o tem, interpreta suas rea\u00e7\u00f5es de maneira positiva, transforma seus grunhidos em balbucios. No entanto, o autista n\u00e3o consegue fusionar. Nasce isolado em si mesmo. Nascendo isolado, privado de capacidade de contato, sem poder interagir com a m\u00e3e, ter\u00e1 as maiores dificuldades de estabelecer v\u00ed\u00adnculos posteriormente.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>O apego atr\u00e1s das grades<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong><br \/>\n<\/strong>Leo \u00e9 um menino cativante, vivo e inteligente, mas demonstra uma agressividade exagerada para com seus amiguinhos da pr\u00e9-escola. Tamb\u00e9m manifesta grande ansiedade, que se revelou depois de um incidente aparentemente trivial. Um dia em que ventava muito, como tantas vezes acontece no Sul da Fran\u00e7a, o lustre do quarto dele come\u00e7ou a tremer sob o efeito de uma corrente de ar e depois caiu e quebrou. Isso criou no menino tamanho estado de p\u00e2nico que ele n\u00e3o quis mais ficar no quarto. Desde ent\u00e3o, instalou-se no quarto da irm\u00e3, mas nem isso conseguiu acalm\u00e1-lo totalmente.<br \/>\nOs pais de Leo se separaram quando ele tinha 20 meses. A guarda da crian\u00e7a ficou com a m\u00e3e. Por\u00e9m, num conflito profissional, ela perdeu o controle e agrediu um de seus empregadores ferindo-o, o que acarretou sua pris\u00e3o por les\u00e3o corporal.Na \u00e9poca, estava gr\u00e1vida e deu \u00ed\u00a0 luz uma menininha enquanto estava presa. Portanto, quando ela saiu da pris\u00e3o, Leo reencontrou uma m\u00e3e potencialmente perigosa e uma irm\u00e3zinha totalmente desconhecida que tinha podido desfrutar da sua m\u00e3e, enquanto ele estava privado dela e fora confiado aos av\u00f3s. Era como se sua m\u00e3e o tivesse abandonado para melhor se dedicar a essa irm\u00e3, que lhe parecia mais rival ainda por ter lhe tirado fisicamente a m\u00e3e.<br \/>\nDeve-se reconhecer que esta \u00e9 uma situa\u00e7\u00e3o um pouco complicada e de dif\u00ed\u00adcil compreens\u00e3o para uma crian\u00e7a t\u00e3o pequena. Leo bate no mundo, como que para puni-lo por n\u00e3o ter lhe dado o lugar que lhe cabia. Ao mesmo tempo, identifica-se emparte \u00ed\u00a0 agressividadematerna. Est\u00e1 na idade emque a crian\u00e7a percorre a gama de todos os medos,mas seu medo t\u00e3o particular do lustre que se quebra certamente o remete \u00ed\u00a0 viol\u00eancia materna capaz de &#8220;quebrar&#8221; as pessoas se elas a desagradarem.<br \/>\nLeo precisa de uma terapia para expor suas ang\u00fastias e aprender a verbaliz\u00e1-las. Na terapia, consegue falar de sua agressividade e n\u00e3o poupa esfor\u00e7os para control\u00e1-la, embora, num primeiro tempo, isso continue sendo dif\u00ed\u00adcil para ele. Pega brinquedos e logo em seguida os rejeita, violentamente, dizendo em seguida para se desculpar: &#8220;Eu queria ele, mas n\u00e3o gostava dele.&#8221;Progride, embora continue inst\u00e1vel,manifesta muita impulsividade em seus atos e uma vontade de mandar em tudo e controlar tudo, como se quisesse que o mundo incompreens\u00ed\u00advel se dobrasse a seus desejos. A m\u00e3e faz o poss\u00ed\u00advel para controlar os transbordamentos do filho; no entanto, sente-se que ela se cont\u00e9m para n\u00e3o ceder \u00ed\u00a0 pr\u00f3pria agressividade. Parece ter dificuldade para entender por que o filho cria tantos problemas enquanto a filha \u00e9 t\u00e3o engra\u00e7adinha, apesar de ter nascido em condi\u00e7\u00f5es dif\u00ed\u00adceis e ter passado os primeiros meses de vida na pris\u00e3o perto dela.<br \/>\nA explica\u00e7\u00e3o est\u00e1 justamente no fato de a filha ter podido ficar com ela. Hoje em dia, uma crian\u00e7a pode viver com a m\u00e3e presa durante seus 18 primeiros meses de vida, e \u00e9 preciso comemorar esse fato. Essas mulheres, geralmente em dificuldade em outros aspectos da vida, revelam-se excelentes m\u00e3es, porque, na pris\u00e3o, t\u00eam tempo livre e disponibilidade para cuidar do filho, ao passo que, fora, seriam mais t\u00f3xicas, talvez, em todo caso menos atenciosas. Ao mesmo tempo, a crian\u00e7a que vive em condi\u00e7\u00f5es carcer\u00e1rias, com tudo o que isso sup\u00f5e de encerramento, mas tamb\u00e9m de fus\u00e3o, muitas vezes manifesta um temor bastante intenso do mundo exterior. Deve-se, por isso, incentivar sua estada em creche durante o dia para acostum\u00e1- la a desgrudar da m\u00e3e e enfrentar o mundo externo.<br \/>\nSe a irm\u00e3 de Leo est\u00e1 bem \u00e9 porque p\u00f4de desenvolver um apego seguro com a m\u00e3e, ao passo que o menininho se sentiu rejeitado, mostrando uma vez mais o sofrimento que uma separa\u00e7\u00e3o precoce da m\u00e3e pode provocar.<\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\"><strong>Sobreviver ao abandono<\/strong><\/p>\n<p style=\"text-align: justify;\">Esta \u00e9 a hist\u00f3ria de duas irm\u00e3s que poder\u00ed\u00adamos descrever de modo um tanto caricatural dizendo que uma era bonita e a outra, inteligente. Refor\u00e7ando a caricatura, a &#8220;inteligente&#8221; se tornou professora e assim continuou ao longo de toda a sua vida solit\u00e1ria; a &#8220;bonita&#8221; teve casos, sempre passageiros e infelizes. De um desses relacionamentos nasceu uma menina, de quem a tia cuidou muito. Tendo crescido, essa menina teve por sua vez casos sem futuro, dos quais nasceram v\u00e1rios filhos que ela abandonou.<br \/>\n\u00c9 com uma dessas crian\u00e7as que me encontro, e com sua tia-av\u00f3, a &#8220;inteligente&#8221;. Adolescente dif\u00ed\u00adcil, exprime por seu comportamento toda a infelicidade de sua curta exist\u00eancia. Abandonado pela m\u00e3e no s\u00e9timo dia, foi colocado numa fam\u00ed\u00adlia substituta, sem nenhum contato nem com a m\u00e3e nem com a av\u00f3. Somente sua tia-av\u00f3 continuou a visit\u00e1-lo de tempos em tempos.Maltratado pelo pai de sua primeira fam\u00ed\u00adlia substituta, esse menino foi colocado numa nova fam\u00ed\u00adlia, na qual foi agredido e abusado. Aluno brilhante num primeiro momento, teve no entanto grandes dificuldades com seus colegas de escola, que costumavam transform\u00e1-lo em bode expiat\u00f3rio. De tal modo que, paulatinamente, foi desinvestindo totalmente os estudos e se fechou num comportamento agressivo e violento.<br \/>\n\u00c9 ent\u00e3o um jovem adolescente, e um juiz de menores n\u00e3o encontrou nenhuma solu\u00e7\u00e3o melhor do que confi\u00e1-lo a sua tiaav\u00f3, sem recomendar nenhum apoio psicol\u00f3gico para nenhum dos dois. A pobre mulher de 70 anos logo se sentiu suplantada por aquele mo\u00e7o, que come\u00e7ou a espanc\u00e1-la, batendo na cabe\u00e7a dela enquanto repetia que n\u00e3o queria que ela morresse.A tal ponto que, j\u00e1 sem for\u00e7as, acabou pedindo que ele fosse novamente colocado em alguma fam\u00ed\u00adlia. Ela me conta a hist\u00f3ria, chorando: &#8220;Nada na minha vida deu certo. Esse menino era como o filho que n\u00e3o tive, mas, como minha irm\u00e3 e minha sobrinha, n\u00e3o consigo fazer outra coisa sen\u00e3o abandon\u00e1-lo.&#8221;<br \/>\nEsse adolescente mostra uma incapacidade de estabelecer v\u00ed\u00adnculos. Abandonado precocemente, sempre jogado de fam\u00ed\u00adlia em fam\u00ed\u00adlia, numa assustadora car\u00eancia afetiva, est\u00e1 como que castrado de sua capacidade de entrar em contato e instaurar uma rela\u00e7\u00e3o com quem quer que seja. Ao mesmo tempo que sabotam qualquer esbo\u00e7o de v\u00ed\u00adnculo, a agressividade e os tapas s\u00e3o o \u00fanico modo de comunica\u00e7\u00e3o que ele consegue conceber, porque foi o \u00fanico que conheceu e a \u00fanica maneira que ele tem de mostrar \u00ed\u00a0 tia-av\u00f3 que gosta dela.<br \/>\nIndependentemente de quais sejam as raz\u00f5es do abandono &#8211; que n\u00e3o compete a mim julgar -, pode-se imaginar o rombo que ele cria? Assim como expulsa a placenta, a m\u00e3e expulsa seu beb\u00ea e imediatamente o rejeita, privando-o da fus\u00e3o de que ele precisa. O corte do cord\u00e3o umbilical, mais que um desligamento, \u00e9 um arrancamento.<br \/>\nA crian\u00e7a sempre pensa que deve ter sido muito m\u00e1 para que sua m\u00e3e a tenha abandonado. Experimenta um sentimento de culpa e de vergonha que, logo de in\u00ed\u00adcio, mina os rudimentos de sua auto-estima. Embora tenha dificuldade de conceber que sua m\u00e3e seja m\u00e1, fica no entanto na ambival\u00eancia, presa de acessos de \u00f3dio emrela\u00e7\u00e3o \u00ed\u00a0quela que n\u00e3o quis am\u00e1-lo. O abandono \u00e9 a certeza de n\u00e3o ser amado e, pior ainda, de n\u00e3o ser am\u00e1vel.<br \/>\nFelizmente existem abandonos que terminam menos mal, por uma ado\u00e7\u00e3o ou uma coloca\u00e7\u00e3o em fam\u00ed\u00adlia substituta. Mas isso teria de ser feito nas primeiras semanas de vida, para que a crian\u00e7a tenha a possibilidade de criar um apego com uma m\u00e3e substituta. Em Lodz, Pol\u00f4nia, um certo Janusz Korczak entendeu isso muito bem. Em 1912 &#8211; portanto, bem antes dos trabalhos de Spitz -, esse m\u00e9dico criou um orfanato-modelo.Modelo porque, em vez de passar de m\u00e3o em m\u00e3o na fila das mamadeiras e dos banhos, cada crian\u00e7a era acompanhada sempre por uma mesma puericultora. Podia reconhecer seu contato, sua pele, seu cheiro, sua voz, suas entona\u00e7\u00f5es, o que lhe garantia uma continuidade que substitu\u00ed\u00ada a continuidade org\u00e2nica com a m\u00e3e biol\u00f3gica. Gra\u00e7as \u00ed\u00a0 intelig\u00eancia e \u00ed\u00a0 sensibilidade desse m\u00e9dico genial &#8211; que mais tarde se recusou a deixar as crian\u00e7as partirem sem ele nos trens da morte -, os pequenos \u00f3rf\u00e3os de Lodz tinham um desenvolvimento mais harmonioso e reais capacidades de apego.<br \/>\nO medo do abandono \u00e9 sem d\u00favida uma das coisas mais bem distribu\u00ed\u00addas do mundo. Para conjurar esse medo fundamental, quase constitutivo da natureza humana, todos os pais contam aos filhos contos de fadas nos quais o her\u00f3i ou a hero\u00ed\u00adna foi abandonado(a)\u00e2\u20ac\u00a6 Assim a crian\u00e7a pode avaliar a sorte que tem de ter perto de si pais que lhe leiam esse tipo de hist\u00f3ria. No entanto, por mais que se leiam e releiam todos os contos de fadas da terra, ningu\u00e9m nunca conseguir\u00e1 se livrar totalmente do medo do abandono. Como se, no fundo de n\u00f3s mesmos, guard\u00e1ssemos as marcas do tempo da fus\u00e3o em que n\u00e3o pod\u00ed\u00adamos satisfazer sozinhos nossas necessidades e da ang\u00fastia arcaica de que a aus\u00eancia da m\u00e3e se prolongue indefinidamente, pondo-nos ent\u00e3o em perigo de morte. No fundo de cada um de n\u00f3s h\u00e1 uma crian\u00e7a insegura adormecida.<br \/>\nExistem duas maneiras de perder e de se separar. \u00ed\u20acs vezes, a decis\u00e3o \u00e9 nossa; \u00ed\u00a0s vezes, somos submetidos a isso. No primeiro caso, a perda se torna suport\u00e1vel, porque podemos control\u00e1- la; no segundo, \u00e9 mais dif\u00ed\u00adcil. A crian\u00e7a abandonada est\u00e1 condenada a sofrer o inaceit\u00e1vel. Por isso, para tentar proteg\u00ealas um pouco dessa dor, \u00ed\u00a0s vezes se diz \u00ed\u00a0s crian\u00e7as abandonadas que a m\u00e3e delas morreu, sendo a morte a \u00fanica raz\u00e3o aceit\u00e1vel do abandono. Pois a morte \u00e9 sempre um abandono. Quando nossos pais morrem, quando somos abandonados por uma pessoa que amamos, todos n\u00f3s, crian\u00e7as e adultos, ficamos \u00ed\u00a0 merc\u00ea desse sentimento de abandono que provoca um desespero absoluto.<br \/>\nOutro dia, atendi umgaroto de 14 anos que perdeu o av\u00f4, o pai e o tio no tsunami que devastou a Indon\u00e9sia. Ele diz que todo um peda\u00e7o dele foi engolido pela onda, que ele se sente abandonado porque nenhum daqueles tr\u00eas homens conseguiu resistir ao vagalh\u00e3o para ficar com ele\u00e2\u20ac\u00a6 Ainda que saibamos que n\u00e3o se pode impedir ningu\u00e9m de morrer, continua aflorando, a despeito de n\u00f3s mesmos, a id\u00e9ia de que talvez pud\u00e9ssemos\u00e2\u20ac\u00a6 Para nos defendermos dessa culpa, n\u00f3s a voltamos contra o outro, que se torna um parente abandonador a despeito de si mesmo.<br \/>\nO sentimento de abandono n\u00e3o poupa nem mesmo os psiquiatras. Minha m\u00e3e morreu faz quatro anos, mas a cada anivers\u00e1rio meu, por n\u00e3o escutar seu &#8220;Feliz anivers\u00e1rio, meu docinho&#8221;, eu me sinto um pouco abandonado. Somos todos \u00f3rf\u00e3os inconsol\u00e1veis, abandonados cr\u00f4nicos.<\/p>\n","protected":false},"excerpt":{"rendered":"<p>ME LARGA! Autor: RUFO, MARCEL Editora: WMF MARTINS FONTES Assunto: PSICOLOGIA ISBN: 8560156615 ISBN-13: 9788560156610 Livro em portugu\u00eas &#8211; Brochura &#8211; 1\u00aa Edi\u00e7\u00e3o &#8211; 2007 &#8211; 186 p\u00e1g. Ao nascer, o beb\u00ea e a m\u00e3e fazem um s\u00f3. \u00c9 o tempo da fus\u00e3o, indispens\u00e1vel, em que ele vai ganhar seguran\u00e7a e for\u00e7a. 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